O Primado Da Alegria

Os estados de espírito do ser humano definem-se por um sistema de assimetrias, apoiadas em binómios, afirmando-se um desses termos pela presença de um determinado comportamento e o outro, pela ausência do mesmo. Os psicólogos, que  têm aprofundado estes estudos, agrupam-nos em emoções positivas (bem-estar, satisfação com a vida, felicidade, alegria, optimismo, entusiasmo, esperança, sabedoria, coragem,  amor, perdão, bom humor) e em emoções negativas (depressão, desânimo, ansiedade, medo, solidão, agressividade, neuroticismo, culpa). O problema reside no facto de se saber qual das abordagens deve ser privilegiada em detrimento da outra. Na verdade, por vezes, o pessimismo parece vencer.

De facto, todos convivemos com pessoas que nasceram e cresceram em ambientes tristes e, aos poucos, foram criando até a sua própria visão do mundo e da vida, marcada por tons negros, reveladores de um mundo interior a extravasar pessimismo. Alguns cientistas chegam mesmo à conclusão de que o caos e o acaso comandam o saber e limitam a investigação do homem. O absurdo espreita o seu labor científico e o mundo e a natureza humana tornam-se incompreensíveis e insondáveis. Para eles, limitados nos seus desejos de descobrir os segredos do mundo e da vida, só o pessimismo, a depressão e o desânimo são atitudes racionais, dignas de um espírito superior. Aceitar o brilho das estrelas, a alegria do espírito humano e a paz universal de um mundo feito de formas e fórmulas simples, sem demasiadas complexidades, é uma atitude simplista, fútil, hipócrita, cobarde, infantil e distante da realidade que nos cerca.

Todavia, tal atitude não empalidece o brilho das estrelas nem rouba a alegria e a felicidade ao espírito humano. Pelo contrário, é enorme o número de pessoas e até de gerações de pessoas cuja alegria não é jogo fútil, hipocrisia ou superficialidade, mas sim atitude séria e reflexão científica profunda. Todos nós conhecemos pessoas que cedo acordaram para estas realidades e que, com o avançar da idade, através delas se foram aperfeiçoando, ao ponto de atingirem uma tal maturidade de espírito, uma alegria, um gosto de viver, uma boa disposição, uma segurança e uma confiança, que deles irradia  e sobre nós se projecta em relâmpagos de luz, calor e vida. Atingir esta perfeição é o mais belo e o mais nobre desejo do espírito humano. É a maior manifestação do amor, o melhor reconhecimento e confirmação da realidade, a única maneira segura e firme de se estar à beira do precipício sem correr riscos. Esta é a verdadeira virtude dos santos que nunca se esgota e vai crescendo sempre com a idade até ao momento da morte, morte essa que não está marcada pela tragédia, mas pela alegria da passagem a uma vida nova, sem dor, sem morte, eterna.

Este é também o segredo do belo e a substância de toda a arte. O poeta, que, através da sua sensibilidade altamente apurada, capta o belo e o dramático da vida humana e os plasma, de maneira etérea e imorredoira, nos seus versos;  o músico, que regista, num momento único de inspiração, o latejar da vida, e, em cada momento, no-lo repete com toda a sinceridade e verdade, são aqueles semideuses, que, talvez no meio de lágrimas e de dor, nos transmitiram a alegria e o brilho todo de  um  mundo sem fracturas. Diz-nos Hermann Hesse (Das Glasperlenspiel, 1972), de maneira magistral: "Talvez o poeta, cujos versos nos entusiasmam, tenha sido um homem solitário e triste, talvez o músico tenha sido um sonhador melancólico, mas a sua obra participa da alegria dos deuses e do brilho das estrelas. O que eles nos dão já não é a sua escuridão,  o seu sofrimento ou os seus medos, é um mundo novo, repleto de pura luz e de eterna alegria". O próprio Fernando Pessoa retrata essa realidade, através desta reflexão intimista: "Tenho pensamentos que, se conseguisse realizá-los e torná-los vivos, acrescentariam uma nova luz às estrelas, uma nova beleza ao mundo e um maior amor ao coração dos homens".

Quando os povos e línguas tentam desvendar os segredos mais profundos do universo, recorrendo a mitos, cosmogonias e religiões, é a esta visão global de ordem, de alegria e de felicidade que eles chegam impreterivelmente. As religiões orientais estão marcadas pelo sofrimento, pela reflexão, pela penitência e pela ascese, mas os princípios fundamentais da sua relação com a transcendência estão iluminados pela alegria  e felicidade das figuras humanas que animam as suas mitologias.

Para os indianos, o mundo, tal como o representam os seus mitos, começa por ser paradisíaco, feliz, brilhante, surpreendentemente belo; mas, algum tempo depois começa a deteriorar-se, e, ao fim de quatro gerações, está irreconhecível. Schiwa, com esgares de riso malévolo e passes de dança macabra, acaba por destruir o mundo; mas este não termina desta maneira: do sorriso e das mãos mágicas de Vischnu nasce um novo mundo, belo, brilhante, gerador de felicidade e de paz. É maravilhoso como um povo tão sofredor, sabe contrapor o poder destruidor do homem, personificado em Schiwa, com a capacidade renovadora de Vischnu, de modo a que da destruição e do caos renasça sempre um mundo belo e atractivo.

Na visão cosmogónica do cristianismo, algo de semelhante acontece. Deus, que é Amor, cria o homem à sua imagem e semelhança, dando-lhe capacidade para amar  e para se manter permanentemente em diálogo com a divindade. Mas o homem tenta destruir o projecto divino, procurando aniquilar o Amor; fica, a partir daí, sujeito ao sofrimento e exposto à própria morte. Poderia pensar-se que a tragédia humana seria inevitável. O certo é que, por último, Deus manda o Seu próprio Filho para assumir a natureza humana e restabelecer a ordem inicial, vencendo a morte. O bem, a alegria, a felicidade e a ordem triunfam, definitivamente, sobre o mal, a tristeza, a dor e o caos. O Ressuscitado é a certeza de que a ligação à transcendência é possível, desejável e criadora de um novo mundo e de uma nova esperança.

O mundo ocidental deixou-se encantar pela concepção masoquista do universo e da vida, segundo a qual, o bem-estar e o prazer só podem ser obtidos mediante sofrimentos físicos e morais. Em vez de cultivarmos a alegria e a felicidade como dádivas divinas, promotoras de estados de alma consentâneos com a natureza humana, transformámo-nos em pastores de pessimismos e derrotismos  inveterados. Aí temos o "fado" a corroer a alma lusitana, como se fosse essa a nossa sina. Seria saudável ultrapassarmos, nas próximas gerações, essa mentalidade que não advém da nossa matriz cristã nem do nosso tutano humano. Não pretendemos advogar atitudes fundamentalistas sejam eles optimistas ou pessimistas, desejaríamos antes ver os portugueses retomarem o pendor voluntarista dos seus antepassados.

De qualquer maneira, registamos, com agrado, os resultados da moderna investigação médica que aponta o riso como sendo o melhor método para prevenir as doenças cardíacas. Pelo menos foi esta a conclusão a que chegou uma equipa de investigadores da Universidade de Baltimore, responsável pelo primeiro estudo que propõe o riso como antídoto às doenças do coração.

Partilhamos também da conclusão a que têm chegado os estudos recentes dos psicólogos, que defendem o primado da investigação e a promoção das emoções positivas em detrimento das emoções negativas.

Para este número da Psicologia, Educação e Cultura, que pretende ser temático, convidámos alguns investigadores, provenientes dos mais diversos quadrantes, para abordarem o tema em causa. Julgamos ter reunido um elenco variado e profundo de contributos, para que os leitores interessados pela investigação passem a ter ao seu alcance um bom manual de consulta.

Autor:
João de Freitas Ferreira

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SUBJECTIVE WELL-BEING: CURRENT ADVANCES IN KNOWLEDGE Autor: António Simões, Joaquim Armando G. A. Ferreira, Margarida P. Lima, Maria do Rosário M. M. Pinheiro, Cristina M. C. Vieira, Armanda P. M. Matos, Albertina L. Oliveira Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade de Coimbra, Portu 514
THE TWO SIDES OF THE JAPANESE ECONOMIC MIRACLE Autor: Daniela de Carvalho Universidade Portucalense, Portugal 550
VARIAÇÕES PSICOLÓGICAS SOBRE O AMOR Autor: Félix Neto Centro de Estudos de Psicologia da Cognição, da Afectividade e do Contexto Cultural, Universidade do Porto, Portugal 560
WOMEN SMILE MORE THAN MEN? Autor: A. Freitas-Magalhães Departamento de Psicologia, Instituto Superior de Ciências Educativas, Felgueiras, Portugal Félix Neto Centro de Psicologia da Cognição, Afectividade e Contexto Cultural, Universidade do Porto, Portugal 571

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