A Cultura Da Ancianidade

"Na medida em que, com o aumento médio da vida, cresce a faixa dos anciãos, será sempre mais urgente promover esta cultura da ancianidade acolhida e valorizada, não marginalizada". João Paulo II, Carta aos Anciãos (1999).

O aumento das expectativas de longevidade, no decurso do século XX, é um facto por todos reconhecido e facilmente demonstrável. A esperança média de vida passou, no Ocidente, dos 47 para os 79 anos e, na primeira década do século XXI, essa média rondará os 85 anos. Em 1952, havia, na Inglaterra, 255 centenários; em 1996, esse número já tinha subido para 5218. Em Portugal, há, neste final de século, um milhão e meio de cidadãos com mais de 65 anos, tendo muitos deles ultrapassado até os 85, o que representa cerca de 15% da população portuguesa. Hoje, já é vulgar encontrarem-se filhos com 60 e mais anos a cuidarem de pais com 85 anos.

Mas, se bem que este milagre foi promovido pela sociedade civil e pela comunidade científica através de uma investigação séria, mediante um progresso consolidado e com base numa industrialização agressiva e faminta de  riscos, estes mesmos agentes de mudança e promotores de bem estar não souberam criar as condições mínimas para que os idosos viessem a enfrentar a sua velhice sem preocupações ou constrangimentos desmesurados. Maria José Rita, esposa do Presidente da República, pôs o dedo na ferida ao afirmar, na abertura do 6º Seminário Nacional do Conselho Nacional para as Ciências da Vida, que "as mesmas sociedades que criaram condições para o aumento da esperança média de vida não têm sido capazes de criar condições para uma velhice confortável".

Na verdade, a mundividência moderna e a maneira de se estar na vida, não permitem que se reserve para os idosos um espaço acolhedor, onde estes se sintam integrados por direito próprio. A sociedade adoptou um código hedonista que envolve toda a estrutura social em que vivemos. O prazer imediato ocupa o primeiro lugar da escala de valores sociais e morais e enforma todos os actos humanos. Por outro lado, a sociedade hodierna é profundamente consumista, isto é, não pretende possuir apenas aquilo que lhe é estritamente necessário para se instalar comodamente na vida e evitar os percalços do dia a dia, mas ambiciona adquirir tudo aquilo que lhe garanta estatuto social. Naturalmente que esta maneira de ver e de viver a vida escancarou portas e janelas para a entrada triunfal de uma sociedade economicista, onde o que conta é o lucro selvagem. É sobre estes três pilhares que assenta a sociedade moderna. Esta sociedade não prevê lugar para o idoso. Ele não produz, ele depaupera o erário público e familiar, ele restringe a liberdade e o bem estar de quem busca febrilmente o prazer. Socialmente é um inútil e um peso morto a evitar. Por outras palavras, o idoso é um "produto fora de prazo", que, embora ainda apresente boas qualidades físicas e mentais, tem que ser deitado fora para dar lugar a "novos produtos".

Esta realidade despoletou uma outra situação não menos grave: para se libertarem de fardos incómodos, os familiares instalam os seus progenitores em suites de hotéis de luxo ou em lares de 3ª idade e, se doentes ou acamados, depositam-nos em hospitais, inviabilizando  assim o convívio das gerações. Mesmo na hora da morte, evita-se que os jovens contactem com essa realidade e que acompanhem os familiares à sua última morada. As novas gerações passam, assim, a desconhecer a dignidade com que se aceita a vida e se enfrenta a morte. Fica no desconhecimento que a grandeza da pessoa humana lhe advém do facto de ser pessoa, independentemente da idade e das consequências que ela acarreta.

Pior ainda é o facto do idoso, após a sua reforma, se assumir como um "coitadinho",   um inútil, um dependente e indefeso, um "parente pobre" dos deficientes, marginais ou desempregados.

Esta situação é tão grave que se torna urgente mudar mentalidades e, como diz João Paulo II, promover a "cultura da ancianidade".

Para isso a família deve compreender que "o lugar mais natural para (o idoso) viver a condição de   ancianidade continua a ser aquele ambiente onde ele é "de casa" , entre parentes, conhecidos e amigos, e onde ainda pode prestar algum serviço (...). Eles são guardiões da memória colectiva e, por isso, intérpretes privilegiados daquele conjunto de ideais e valores humanos que mantêm e orientam a convivência social. Excluí-los é como rejeitar o passado, onde penetram as raízes do presente, em nome de  uma modernidade sem memória" (João Paulo II).

Por seu lado, os idosos têm de saber envelhecer com dignidade. Com a reforma não passam a estar incapacitados de ser activos e de estarem empenhados na criação de um mundo novo. Na verdade, eles devem promover a sua auto-estima, pois são "como bibliotecas vivas de sabedoria, guardiões de  um património inestimável de testemunhos humanos e espirituais" (João Paulo II). Conscientes deste valor humano, que individual e colectivamente representam, os idosos  não podem limitar-se ao papel de destinatários passivos de leis e de  medidas paternalistas que a sociedade lhes queira impor; eles têm de assumir-se como "sujeitos do seu próprio processo de envelhecimento".

 Neste ano que a Organização das Nações Unidas quis dedicar aos idosos, chamando a atenção de toda a comunidade humana para o património que eles representam e alertando, simultaneamente, os governantes e as famílias para a situação indigna e degradante a que grande parte deles são votados, muitos congressos e seminários foram realizados, inúmeras obras foram editadas e incontáveis eventos em honra dos idosos foram promovidos.

A Revista de Psicologia, Educação e Cultura associa-se a todo este movimento de defesa e promoção da dignidade do idoso dedicando este número à "cultura da ancianidade".

Autor:
João de Freitas Ferreira

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